sábado, 27 de novembro de 2010

Av. Brasil


estou a caminho do Rio,

não vejo a hora de mergulhar na acre-doce densidade de tuas inúmeras imagens

no rumorejar rítmico dos teus sotaques

Caminharei do Realengo ao Leblon sem arreios ou lembranças carregadas

sei que parte de mim encontrarei ali,
diluída entre morros apinhados
onde habitam anjos e o rugir de violentas tempestades

e como ilhéu tragado entre o instinto transitório e o mar infinito e sereno - deixarei fixar o olhar passivo do nativo que se estende curioso sobre mim

e vagarei os dedos suaves ao toque de tuas ruas de sobras de caixotes que exalam o odor amargo de suor e mofo

Av. Brasil, vaga cunilíngua entre os cativeiros da miséria!

Jovens e mais jovens encolhidos e sobrepostos
O sexo firme sob fina camada de pano encardido
Lançam suas apostas em dias melhores que virão

guerreiros abatidos amontoados sobre ruínas de castelos de sonhos

Ouço vozes oprimidas do Vidigal!

o garoto negro espaduado soletra timidamente
- Can-tá-gá-lô,
enquanto arrasta as chapas de sandálias kenner
sobre o majestoso palco de Copacabana

gostaria de detê-lo e arrancá-lhe
sob as vestes
uma história...

Vai Zumbi espoliado – que se destoa
enquanto mergulha na multidão de espuma branca
rumo às prisões e o cadafalso!

Rio, tu és belo e humano, profundamente humano
- Oh, devorador de homens!

a ti entrego a fraude asfixiante que me tornei, 
meus subterfúgios,
minha forma vergonhosa que insiste permanecer

desço a Urca sambando,
beijo Tijuca,
com lábios doces acaricio Leme,
no Macaco abandono os despojos,
em Ramos, entrego-me ao meu algoz!

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