sexta-feira, 13 de março de 2009

Jornal Gazeta Mercantil - Poiesis mapeia pontos de poesia na Grande São Paulo

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13/03/09
Gazeta Mercatil
Poiesis mapeia pontos de poesia na Grande São Paulo
por Rui Mascarenhas, Adriana Cavalcanti e Tatiana Fraga:

Quando o poeta Frederico Barbosa, diretor da Poiesis – Organização Social de Cultura (que administra a Casa das Rosas, a Casa Guilherme de Almeida, o Museu da Língua Portuguesa e o programa São Paulo: Um Estado de Leitores), decidiu mapear os saraus poéticos na Grande São Paulo não imaginava que encontraria pela frente uma infinidade de encontros entre poetas, escritores e amantes das letras. O projeto, batizado de Pontos de Poesia, teve início em fevereiro, e já naquele mês cadastrou 28 saraus. “O 'Pontos de Poesia' surgiu da percepção dos acontecimentos, do movimento latente desse fenômeno, da necessidade de descentralizar o foco literário espalhando suas possibilidades e riquezas em áreas carentes de literatura”, conta Frederico.

A proposta do projeto é, além de mapear os saraus na Grande São Paulo, conhecer o perfil de seus freqüentadores, seus diferentes estilos e formatações, a construção temática, a história do próprio local, rico em referências, entendendo suas etapas de formação, para que seja possível desenvolver projetos multiplicadores e iniciativas que promovam a leitura.

“O cadastramento e mapeamento é apenas a ponta do iceberg, e deverá estar devidamente concluído agora, no mês de maio. A partir de então, serão criadas diversas ações localizadas efetivando iniciativas, projetos e propostas multiplicadoras de oportunidades que possam alavancar a produção literária na Grande São Paulo, intensificando os prazeres da leitura”, explica o diretor da Poiesis.

Em princípio, o projeto contemplará os saraus que reúnem a comunidade em torno dos diferentes aspectos com os quais a literatura se estabelece: estimulo à reflexão, leitura, criação de texto e expressão oral – tudo num mesmo lugar, de forma lúdica e descompromissada - elementos que resultam na criação e no aumento da produção literária, como vem sendo constatado.

O trabalho de pesquisa está sob a coordenação do poeta e escritor Rui Mascarenhas, que trabalha como pesquisador e produtor de eventos no programa São Paulo: Um Estado de Leitores (SPEL). De trem, ônibus, carona ou a pé, Mascarenhas se desloca até os saraus e registra cada detalhe com fotos, anotando os dados importantes e gravando depoimentos.

“Primeiro pesquiso onde acontecem esses eventos, em seguida estudo a logística de aproximação e retirada; às vezes em áreas distantes e de complicado acesso, o que possibilita o enorme prazer da aventura, das novas descobertas, do encontro com o inusitado”, explica. E confidencia: “Eu acho que estou ficando viciado em saraus. Um atrás do outro, sequência ininterrupta de textos, infinitos estilos, vozes, cantos, pessoas”.

Em suas incursões poéticas, o coordenador do projeto Pontos de Poesia observa um novo movimento em prol da literatura. São os sem-letras, sem-livros e sem-voz, que reivindicam expressar suas realidades. Eles buscam as vias da inserção literária, invadem bares e botecos, que antes eram áreas de risco e perdição, e hoje compartilham o imaginário e o conhecimento.

É possível também observar o grande número de presentes nesses saraus e o intercâmbio de poetas de diferentes comunidades – a intensa reflexão proposta em torno da atual produção literária paulistana, a diversidade dos temas e estilos apresentados. Num extremo, o manifesto, a busca de uma identidade literária genuinamente periférica composta, intrinsecamente, dos elementos desse cotidiano de exclusão. Do outro, a representação romântica de um universo em crise existencial.

O projeto já registrou, entre outros, o Sarau Poesia na Brasa, em Brasilândia, com a presença de 80 jovens. Criado em julho de 2008, se manifesta como um movimento cultural de periferia para periferia, abrindo espaço para reflexão, discussão e expressão artística. “Negra, levanta para acordar o dia!”, brada Vagner “uma Rocha” Sousa, recitando em agradecido reconhecimento, uma homenagem à batalha da “mãezona” – explosão de todas as guerreiras - ali, silenciosamente orgulhosa – “bendito o fruto” - que ao lado do irmão, Sidnei das Neves, com os cuidados da Taís, organizam tamanha manifestação de congregação e luz.

No canto, ao lado dos que recitam, uma biblioteca se forma (como uma caixa de letras de músicas pedindo acompanhamento). Os livros são emprestados e renovados de sarau em sarau. A meta é atingir, pelo menos, 2.009 títulos esse ano.

Em Campo Limpo, o Sarau do Binho, mesmo em uma segunda-feira chuvosa, no dia 9 de fevereiro, reuniu mais 100 pessoas, de todas as idades. Localizado na altura do número 4.000 da Estrada de Campo Limpo, abriu às 20 horas com um filme: “Vídeolência" - 60 minutos de reflexão audiovisual proposta por quem vive a periferia”. Na cena, o cano de uma arma percorre os corredores da favela. Teve ainda o lançamento de livro “Lágrima Terra”, de Daniel Fagundes em co-autoria com André Luiz Pereira. “Inacreditável que em plena segunda feira – céu em prantos – risco de enchente, distante quebrada do Campo Limpo – estivessem reunidas tantas pessoas em busca de qualquer coisa incomum”, diz Mascarenhas."

Acompanhe os Saraus: http://www.pontosdepoesia.blogspot.com/ - participe, compareça; testemunhe os novos tempo que vivemos!!

Um comentário:

Luciana disse...

É extremamente saboroso vislumbrar toda essa explosão poética que esta sendo realizada! São várias sementinhas de poesia que cresceram e se espalharam pela cidade. Realmente me sinto na época dos grandes poetas!!! Parabéns pela pesquisa e pelo lindo trabalho literário.
Muito fã!!

Salve!